23 de dezembro de 2013

47 - Desemprego: como sair disso?

A todo tempo existe um conjunto de trabalhadores disponíveis ao trabalho, isso é a população economicamente ativa(PEA).  Mas nem sempre todos estão empregados, os que estão desempregados, mas gostariam de estar trabalhando, compõem o desemprego involuntário, que é a categoria de desemprego que interessa, porque outros podem estar desempregados voluntariamente, ou porque estão mudando de emprego, ou não aceitam ganhar o salário que está sendo oferecido, etc. O fato é que desemprego é o involuntário. Mas aí vem a pergunta que não quer calar: por que existe desemprego involuntário? Uma coisa é certa, é que as empresas não estão desejando(ou podendo) empregar essa gente! Quero entender por quê!

A questão pode ser enxergada por dois pontos de vista, o clássico e o keynesiano, eles não se entendem!
Os economistas clássicos entendem que não pode existir desemprego involuntário, e garantem que nem existirá, mas impõe uma condição, a de que os salários nominais sejam flexíveis para baixo, ou seja, se os trabalhadores que estão empregados aceitassem ver reduzidos seus salários, de modo a que os trabalhadores que estão fora do mercado de trabalho possam ser inseridos, todo mundo que deseja trabalhar estaria trabalhando! Vou dar um exemplo que até pode ser grosseiro, mas mostra o efeito. Suponha que uma fábrica empregue 100 trabalhadores, mas que existam mais 10 trabalhadores desejando emprego, se os 100 trabalhadores aceitassem uma redução do salário de 10%, os trabalhadores que estão de fora estariam empregados, e, portanto, não haveria desemprego! Aí, vem um sindicato e diz, não aceitamos essa redução de salário! Tá bem, então permanecemos com o desemprego!

Em 1929 vem a Grande Depressão, e a taxa de desempregados vai a 20%, é como se a PEA fosse de 125 pessoas, e houvessem 100 trabalhadores na fábrica e 25 procurando emprego(25/125=20%), um caos! Keynes escreve sua teoria em 1936 e, aparentemente, discorda do ponto de vista clássico, ele diz que há uma rigidez de salários nominais para baixo, e assim não existirá pleno emprego(lembre-se de que os clássicos diziam que a economia sempre estaria em pleno emprego, porque “a oferta cria sua própria procura”). E a crise de 1929? Assim, Keynes detonou a teoria clássica mostrando que as empresas não propõem a baixa dos salários porque enfrentariam a guerra dos sindicatos, então,  simplesmente, demitem! Ou seja, a economia opera com rigidez de salários nominais!
Os clássicos não se consideram derrotados porque eles colocaram a questão, e foram claros, existe essa condição, se aceitarem salários flexíveis para baixo todo mundo estará empregado!  Todo trabalhador que está lendo esse meu texto nesse momento, deve estar pensando, Ivan, não mexe com esse vespeiro não, já estou ganhando pouco, ainda vou ter que colaborar com quem está desempregado!  rs rs

Aí, sempre vem alguém pra propor, porque não empregam os que estão de fora e as empresas que aceitem terem seus lucros reduzidos, ao invés de propor redução de salários? Bem, aí, cai no campo do emocional, do povo triste e sofrido, que, com toda a razão não precisa acertar no que diz, mas uma redução de lucros não tem a capacidade de aumentar o nível de emprego, porque salários são gastos, se transformam em demanda efetiva, mas e os lucros, o que é feito com eles? Se você está ai pensando, “são gastos também”, Kalecki pensa diferente, “os trabalhadores gastam o que ganham, os capitalistas ganham o que gastam”. Se isso faz diferença? Imensa, total, e desestabilizante!  Nós chegamos lá!
Ivan Siqueira  

21 de dezembro de 2013

46 - Feudalismo: um quase capitalismo!


(antes leia o post 45)

Se vou falar de Idade Média? Vou sim. Mas, isso é coisa do passado, ninguém quer mais saber disso! Até pode ser, mas eu quero, porque no feudalismo estão muitas explicações para os acontecimentos de nossos dias! Por outro lado, o poder sempre usou de uma mesma estratégia: você me dá aquilo que eu te dou isso!
A escravidão não era ainda capitalismo, e a escravidão não deu certo, falei  disso no post 45. Chega a Idade Média e com ela o surgimento dos feudos. O feudo era um pedaço de terra que um senhor do feudo permitia que um servo arrendasse e explorasse, vitaliciamente, e isso era mesmo a garantia do servo, era vitalício mesmo! Se a terra era vendida, o servo e sua família iam juntos! E quem era o “senhor do feudo”, o proprietário? Não, o “senhor do feudo” também era um arrendatário de um outro senhor do feudo, que também, por sua vez, era arrendatário de outro senhor do feudo, uma cadeia, até chegar no proprietário, quase sempre a Igreja, e em menor escala, outros titulares da nobreza.

Qual era a “graça” do sistema feudal? Era, exatamente, o que se vê até os dias de hoje, o “eu te dou aquilo e você me dá isso!” O senhor do feudo dava proteção ao servo, proteção contra um sistema sanguinário, o inimigo vinha de cavalo, invadia a aldeia e com aquelas espadas de quase dois metros cortava a cabeça do aldeão e de sua família, e para “limpar” tudo, colocava fogo na aldeia! É só assistir ao filme “Príncipe Valente” com o Mel Gibson, ou outros do gênero!
Em troca dessa proteção do “Estado”(o “Estado” era o senhor do feudo, porque na Idade Média não havia um poder centralizador), o servo pagava ao senhor com dinheiro ou alimentos, além de que tinha que arar as terras do senhor antes de arar as terras do seu próprio feudo! O Brasil acaba de comprar aviões caças da Suécia, e também vai dar proteção aos seus cidadãos, claro, esperando que os cidadãos paguem seus impostos! O feudo só cresceu e mudou de nome, mas é sempre um “me dá aquilo que eu te dou isso!”

Mas, então, parece que o servo era um escravo! Não, o servo não era vendido individualmente, quem eram vendidas eram as terras, e o servo ia junto! Mas o que quer dizer a palavra servo? Vem do latim, “servus”, e quer dizer “escravo”.  Mas, existe uma grande diferença entre o sistema feudal e a escravidão, aquele, apesar de ser uma economia da oferta(produção) ainda que pré-capitalista, mas o servo gerava renda para si e sua família, e renda volta ao mercado para comprar outras coisas, ou seja, já permitia uma economia da demanda ainda que rudimentar! Você, internauta, vê a importância disso, o sistema capitalista já estava no útero, e desejava aflorar! Mas um sistema econômico necessita de um poder por trás e de uma ideologia que o garanta, é sempre uma ideologia que “consagra” as intenções de um poder. Só que haviam senhores eclesiásticos e senhores seculares(esses não eram da Igreja, eram duques, barões, etc,  e tinham interesses próprios!) Mas todos concluiram que uma diretriz mais forte deveria representar a todos. Foi aí que os senhores feudais se uniram para  criar a ética paternalista cristã.  Você já viu o que viria pela frente, vão dizer, e “provar”,  que Deus está de acordo com tudo!  
É isso, bem que dizem que se correr o bicho pega, se ficar o bicho come! Mas os caras deram com os burros n’água, porque a ética paternalista cristã era uma espécie de legitimação moral que o sistema feudal precisava, mas gerou uma contradição com o desenvolvimento do capitalismo que desejava sair do útero, e aí, criou-se o impasse! Como sair disso?

Ivan Siqueira

19 de dezembro de 2013

45 - Escravidão: que fiasco!

O sistema capitalista vive se adaptando, procurando o que é o melhor para ele, mas necessáriamente o que é o melhor para ele não é o melhor para o capitalista! O termo “exploração do trabalho” conduz a uma análise totalmente equivocada, quanto mais o capital explorar o trabalho, mais o capital estará cavando sua própria sepultura! Aí o cara diz assim, ah! então eu tinha entendido errado, pela visão marxista, eu achava que explorar o trabalho é o máximo para o capitalista!

Prestenção! Isso só pode ser claramente esclarecido a partir do entendimento sobre a demanda efetiva, com Keynes ou com Kalecki. Senão, vejamos. Pode existir uma forma de exploração mais perfeita, mas totalizante, do que a escravidão? Se explorar o trabalho fosse um “bom negócio”, a escravidão  seria um sucesso, mas foi um fiasco! Em Roma e na Grécia Antiga, cerca de 80% da população era formada por escravos. E esse sistema econômico, produzir usando o trabalho escravo, permitia ao senhor de escravos, apropriar-se de todo o excedente produzido pelo escravo, lembrando que o escravo só recebia apenas alimentação e vestuário para sobreviver.  Essa ideologia de vida parecia tão natural aos olhos de todos que até Platão e Aristóteles achavam que certos homens nasciam pra ser escravos, e que outros mais dotados intelectualmente vieram pra ser donos de escravos! Veja você!

Qual a conclusão? Os donos de escravos viviam cercados de luxos, possuíam mansões, exploravam sexualmente as escravas, mas não tinham o principal: não geravam renda para alguma classe que pudesse demandar os produtos deles! Era uma economia que não criava demanda efetiva! Deu em que? Total estagnação da economia antiga, o que fez o Império Romano entrar em declínio vertiginoso como um aviãozinho de papel!
Ah! Então explorar o trabalho em maior ou menor grau vai dar nisso! Mas, ninguém sabia sobre demanda efetiva, Keynes(e Kalecki) só deram as caras no século XX, na década de 30, e aí, sem esse tipo de análise, o que os caras fizeram depois do fiasco da escravidão?  Inventaram o feudalismo.  

Ivan Siqueira

18 de dezembro de 2013

44 - Quando "O Capital" foi publicado em português

Aqui no Economeditando devo me perguntar e responder a questões, nem sempre as perguntas serão as melhores, apenas faço um esforço para fazer boas perguntas, e, quanto as respostas, nem sempre serão as mais acertadas ou definitivas, porque a evolução faz parte da dialética! Já que assim é, nada melhor do que fazer logo a pergunta: - Ivan, você é um  marxista? E vamos logo à resposta: - De maneira nenhuma, se eu fosse um marxista significaria acreditar que o marxismo é a solução para os problemas que a vida nos impõe, mas o marxismo não tem essa solução! Mas, aqui vamos debater exaustivamente o marxismo, porque o conteúdo desse corpo de filosofia, economia e história, tem muita coisa que interessa ao mundo!

Estão aqui na minha frente, ao lado do meu notebook,  os livros da obra “O Capital”, de Karl Max.  Essa obra foi escrita e publicada no seu original em 1867, a 1ª edição, e possui 3 livros.  A edição que eu tenho, foi publicada em português pela Editora Civilização Brasileira, e os 3 livros se transformaram em 6 volumes, que contém os 3 livros da obra. Na orelha do Volume 1 existe esse texto:
“Com este volume inicia-se, pela primeira vez, a publicação integral, em língua portuguesa, de O Capital, de Karl Max. É empreendimento de inegável significação histórica em nosso País”.
O ano  da publicação em português é 1971, mas existe uma anotação minha em caneta azul, que contém minha assinatura e uma data,  “Niterói, 24/11/73”, muito provavelmente a data da minha compra dessa obra, é certo que comprei os 6 volumes no mesmo dia. Foi uma grande sorte, ter comprado essa que é a primeira edição em português do “O Capital”. E , 1973 é o ano de minha formatura, o que significa dizer, não estudei “O Capital” na universidade, mas o estudei exaustivamente durante a vida! É baseado nessa publicação que pretendo trazer abordagens a esta obra magistral. Abordagens podem ser acolhidas, simples reflexões e críticas, mas sobre isso, veja o que o próprio Karl Marx  diz ao final do prefácio da 1ª edição:
“Acolherei, com a maior satisfação, as manifestações da crítica científica. E quanto aos preconceitos da chamada opinião pública, torno minha agora como dantes, a máxima do grande Florentino:
          Segui il tuo corso, e lascia dir le genti!
         (Segue teu rumo e não te importes com o que os outros digam!)
                           Londres, 25 de julho de 1867.
                                               Karl Marx
Ivan Siqueira
 
 

17 de dezembro de 2013

43 - Quando o capital e o trabalho se tornaram amigos

Ainda nem comecei a escrever esse post, mas já sei que ele vai ser diferente dos anteriores, porque não vai seguir o que me ensinaram na escola, afinal eu já estou crescidinho, e aprendi a me safar do maior mal que assola a humanidade: ideologias!

É preciso saber aproveitar o que uma ideia tenha de conteúdo científico, não venham me dizer que o marxismo é coisa do passado, as verdades que ali repousam precisam compor a teoria econômica moderna, e o lixo que lá também se encontra, precisa ser varrido, no mundo das ideias não existe Super Man, existem apenas ideias acertadas ou não! A teoria macroeconômica de John M. Keynes , que tem elementos formidáveis, está incompleta se não se aliar ao pensamento de Karl Marx. Você pirou, Ivan, um é defensor do capitalismo, o outro fez tudo pra mostrar que o capitalismo é o pior dos sistemas econômicos, arranca a mais-valia do valor do trabalho, explora os trabalhadores!  Vamos ver essas coisas, mas vamos colocar um óculos contra miopia!
Marx dividia o mundo entre trabalhadores e capitalistas, segundo o pensamento dele é dessa luta de classes que a vida econômica se arranjava. Keynes chegou em 1936 e fez vista grossa, ou seja, não considerou essas classes em sua teoria, mas que haviam quatro classes: a de investidores, consumidores, governo e resto do mundo, assim, o baile se dava entre esses! E, ainda por fora, a moeda, que organizava o baile! Foi assim que ele formou sua teoria macroeconômica da demanda efetiva, o que acontece nos bastidores entre trabalhadores e capitalistas era figuração, segundo plano, que não importava a ele, nem afetava sua teoria! Será que dá pra aceitar isso, caro internauta?

À mesma época que Keynes publicou suas ideias, um economista polonês, Michal Kalecki, publicou  uma teoria absolutamente coerente com a teria keynesiana, e está mais do que comprovado que as duas teorias foram feitas independentes uma da outra, ninguém copiou ninguém. Assim, a teoria kaleckiana também é uma teoria da demanda efetiva, como a de Keynes, há até quem diga que são teorias iguais, mas no mundo de Kalecki tudo acontece entre trabalhadores e capitalistas! Cara, isso é fantástico, isso é o que a vida precisava, porque você pode enxergar as atividades de um banco central e como elas afetam, prejudicam , ou dão ganho a essas duas classes, ou a uma delas em detrimento da outra! Você deve estar aí se perguntando, quem fez isso, onde eu leio sobre isso? Calma aí, você está lendo!  Até eu preciso de calma, porque não posso queimar etapas!
Na verdade, Kalecki publicou(1933) antes de Keynes(1936). Se você, caro internauta, vem lendo meus posts, já viu que tudo era uma consequência da teoria clássica marginalista estar dando errada no mundo, e isso desembocou na crise de 1929. Mas antes, em 1926, um economista italiano, Piero Sraffa, já havia escrito um artigo onde demonstrava claramente que a base do marginalismo, o mercado de concorrência perfeita, não se aplicava ao mercado real. Isso batia perfeitamente com uma ideia de Marx de que a concentração do capital tinha origem nas economias de escala das empresas, ou seja, as empresas tendiam para um “gigantismo” através da concorrência monopolística. Como é que é? Repete isso! Sim, na concorrência perfeita, aquele mundo onde tudo corre perfeitamente bem, não é possível acumular capital, nem crescimento!  Caramba, quer dizer que se falava mal do que era a solução? Mais ou menos isso! Sraffa não era um marxista, sua teoria apenas demonstrou que Marx estava certo, a concentração de capital depende da concorrência imperfeita!

Nesse estado de coisas foi que Keynes entrou de sola, demoliu o marginalismo, mas não pela via marxista, mas sim, criando uma sociedade de quatro classes, a razão da economia era produzir bens de consumo para a classe de consumidores, e para isso a classe das empresas investiam, por outro lado, a classe governo arrecada impostos e efetua gastos públicos, e finalmente uma outra classe, o resto do mundo, mantém relações internacionais com a economia doméstica, através dos fluxos de compras e vendas de bens e serviços externos, e do fluxo de rendas financeiras e capitais que se alocam daqui pra lá e de lá pra cá. Esse é o mundo keynesiano, e o mundo que está em todos os manuais de macroeconomia adotados nas universidades. Vai se conformar com isso?
Em 1929, no ano da crise, Michal Kalecki trabalhava em Varsóvia. Em 1933 publicou sua teoria e a apresentou numa conferencia internacional, e em 1935 voltou a publica-la em uma revista. Sua teoria mostrava que a atividade econômica depende do gasto dos trabalhadores, e que os capitalistas não têm lucro porque produzem, mas produzem o lucro mesmo antes deles existirem, no ato do investimento, ele dizia “os trabalhadores gastam o que ganham, os capitalistas ganham o que gastam”.

Hoje, já dá para propor uma outra visão, a de que “os trabalhadores gastam, porque os capitalistas ganham, e os capitalistas só ganham porque os trabalhadores gastam!” Mas, isso parece ser keynesiano, ou não? No mundo de Keynes não existem essas classes! Como ele foi deixar de fora isso? No mundo de Keynes é a política fiscal e a política monetária que comandam a vida. Mas que tal um mundo perfeito onde a política salarial e a política de lucros fossem a orientação? Como assim, dar ganhos às duas classes ao mesmo tempo? Desculpe, Marx diz que isso não é possível, o capital existe para explorar o trabalho. Calma aí, companheiro, precisamos conversar, e ajustar o passado ao que o presente já possibilita, não veja Marx como um dragão, o cara tem coisas fenomenais, vamos usar isso, e mostrar o que não funciona na teoria dele.  Se fosse pra rezar, vamos pra uma igreja, lá recebemos tudo o que precisamos através da fé,  aqui é Economeditando, uma seleção de ideias.  
Assim, vou destilar uma teia parecida com a do Homem-Aranha, onde o que há de excelente em Marx se encontra com Keynes e Kalecki, vamos perder essa mania de falar mal de todo mundo, todos têm a oferecer! E os trabalhadores? Os trabalhadores só ganham com isso, o dia em que o capital e o trabalho se tornaram amigos! Pode isso? Pergunte ao trabalho se ele deseja ser o capital, e aguarde a resposta, pode ser surpreendente! Kalecki morreu em 1970, mas pensou o bastante para que o mundo fosse muito diferente do que o que temos! O assunto está só começando!

Ivan Siqueira

15 de dezembro de 2013

42 - Um mundo sem inflação

Os economistas têm como função oferecer a sociedade um mundo com um bom nível de produção, sem desemprego, ou, menor desemprego possível, e sem inflação, ou, menor nível de inflação possível. Mas, são tarefas difíceis!

Nas artes tudo é mais fácil, como é diferente, a arte da ciência! Conta-se que um economista gostava de uma música, a “Cavatina”(Stanley Mayers), mas um economista não tem o poder de explicar por que uma determinada música possa ser considerada bonita! Talvez que, uma música bonita seja o “Show das Poderosas”(Anita), nunca se sabe o que quer dizer “música bonita”!
Em economia é diferente, não depende de juízo de valor, vou contar uma estória que mostra isso.

Conta-se que um governo desafiou a todos os economistas do mundo a explicar se poderia existir um mundo sem inflação, mas se alguém tivesse essa explicação, que explicasse isso no menor tempo possível, ganharia o concurso quem desse a explicação no menor tempo. Estava lançado o desafio, e os economistas foram lá tentar a prova e ganhar o concurso.
O combinado é que o público entendesse qual a condição para que houvesse um mundo sem inflação. O primeiro economista inscrito explicou sua teoria em 4 minutos. Em seguida, um outro economista deu uma outra explicação, e levou apenas 1 minuto para fazer o público entender sua teoria. Aí , apareceu um economista gozador, ele gastou apenas 18 segundos, e disse que bastava que as pessoas não tivessem renda, assim não haveria inflação! Aí, uma pessoa do público contestou: “mas, sem renda as pessoas morrem, né!”. Está claro que aquele economista apareceu ali apenas para tumultuar o ambiente! O concurso prosseguiu, e um outro economista deu uma boa explicação e gastou apenas 12 segundos, ele era o mais indicado ao prêmio. Foi quando  o último economista da lista de inscritos, se apresentou e disse para o público:

- Contem até 3, antes que terminem a contagem eu já explico a condição para a existência de um mundo sem inflação!
O público imediatamente começou a contagem, todos juntos:
1 ... 2...
E o economista disse:

- Um mundo sem moeda! 
Nem deu tempo do público contar o 3. O silêncio foi geral... todos meditavam sobre o que o economista disse!

É que já existiu um mundo sem moeda, e não havia inflação nesse mundo, mas a divisão do trabalho trouxe a moeda em seu rastro, e com ela a inflação.
As pessoas ali naquela praça quiseram saber qual era o grande ensinamento disso, e o economista explicou:

- A inflação é, em todos os tempos, um fenômeno monetário!
O economista ganhou o concurso. Mas, aproveitou e esclareceu: “Quanto ao que seja uma música bonita, nós os economistas não temos uma explicação, vai depender de você, mas ouça a “Cavatina”, quem sabe  você goste!”

Ivan Siqueira

12 de dezembro de 2013

41 - Para que servem os bancos - Parte I

 Não se sabe exatamente quando os bancos surgem no cenário econômico, mas sabe-se que já se concediam empréstimos e trocavam-se moeda estrangeira na antiga Babilônia e na Roma Antiga. Mas, como isso não é a principal atividade bancária, somente na Itália renascentista é que os bancos surgiram recebendo depósitos à vista e a prazo, ou seja, já vendiam algum tipo de CDB por lá! O banqueiro sentava-se atrás de uma mesa, ou banca, e se ele não honrava seus compromissos de pagar aos seus credores, estes quebravam a banca, isso originou a expressão “quebra de um banco”. Naquela época não tinha um banco central para socorrer o banqueiro, essa moleza de hoje em dia!

Os bancos se desenvolveram quando os banqueiros perceberam que poderiam emprestar parte das moedas que eram depositadas nesses bancos, já que nem todos os depositantes apareciam ao mesmo tempo para pegar o dinheiro de volta. O passo seguinte foi dar ao depositante um recibo do que ele tinha no banco, e esse recebido os depositantes poderiam passar adiante, e isso deu origem as notas de papel moeda.

Nos Estados Unidos o primeiro banco é de 1782, é o Bank of North America, a partir daí a atividade bancária deslanchou, mas somente em 1837 é que surgiram os bancos livres, onde todo aquele que atendesse alguns poucos critérios poderia organizar um banco, e aceitar depósitos, entregar cheques, e emitir notas bancárias, que eram uma espécie de recibo que garantia os depósitos. Mas esse sistema “deu pano pra manga”, como gostava de dizer minha saudosa avó, deu muita confusão, havia falsificação de notas bancárias, notas de bancos que não existiam, além do que, os próprios bancos dificultavam a que os portadores dessas notas resgatassem os depósitos, tinha banco que se localizava em lugar de difícil acesso, e o cara que tinha uma nota bancária ficava com preguiça de ir lá resgatar o depósito, e isso fez desvalorizar o valor das notas bancárias que passaram a circular com valor abaixo do  valor nominal delas. Você está entendendo que essas notas bancárias eram um embriãozinho de um CDB, ou seja um título que garantia um depósito!

Aí, vem a Guerra Civil, e a necessidade é que os bancos funcionassem como um mercado para os títulos do governo, o  governo precisava vender títulos para financiar a Guerra Civil, e aí foi criado um sistema bancário nacional, com bancos nacionais e onde as notas bancárias foram padronizadas e regulamentadas, para cada 9 dólares de notas bancárias emitidas o banco tinha que depositar 10 dólares de títulos do governo na autoridade que controlava o sistema monetário. Acabaram com a farra das notas bancárias! E veja que isso, para usar um termo moderno, é uma reserva compulsória pesada, ou seja, a prova de que o dinheiro estava lá para garantir o depósito, e melhor ainda, o dinheiro estava servindo a atividade governamental, uma vez que fora investido em títulos públicos! Quanta diferença dos dias de hoje!

A qualquer momento vou seguir com esse tema – Para que servem os bancos - vem muita coisa de estarrecer, ou eu não me chamo Ivan!

Ivan Siqueira

26 de novembro de 2013

40 - A forma sutil do governo fazer o mal

Sempre fiquei surpreso de ver as pessoas preocupadas com a corrupção que permeia a atividade pública, mas não se tocarem que existem coisas piores e de muito mais vulto do que a corrupção, uma forma sutil do próprio governo fazer o mal e legitimamente!

Podem, as atitudes e medidas do governo afetarem os investimentos produtivos que as empresas desejam realizar? Se isso existe, o governo seria um inimigo do PIB!!
A princípio, nossa maior vontade de resposta seria, podem sim, quando o governo aumenta impostos. Mas não é disso que vamos tratar aqui, mas de uma forma sutil do governo promover o mal da economia: o crowding out.

Suponha uma economia onde o orçamento fiscal esteja equilibrado, o governo realiza gastos(gastos do governo) na medida exata do que arrecada de impostos(tributos), os impostos são a receita fiscal, os gastos do governo são a despesa fiscal. Assim, a situação dessa economia seria, G – T = 0 em determinado período, digamos, no ano anterior.
Agora, suponha que no exercício seguinte os gastos do governo(G) sejam maiores do que os impostos arrecadados pelo governo(T), o governo passou a ter um déficit orçamentário. Como o governo faz para financiar um déficit orçamentário? Ele tem duas soluções , ou emite moeda, ou emite títulos, e vende esses títulos ao público, quase sempre ao setor empresas. Mas entre decidir sobre ter moeda ou títulos públicos, a escolha recai sobre títulos que pagam juros. O que são moeda e títulos públicos? Ambos são uma dívida do setor governo com o público(leia-se empresas). Mas, quais as remunerações dessa dívida, afinal quem deve a alguém remunera ao credor com alguma coisa? Claro. Títulos públicos oferecem juros a quem os detém, enquanto moeda oferece inflação. Mas inflação não é remuneração, diríamos todos! Nem juros são remuneração, apenas juros reais o são, ou seja aqueles acima da inflação. Pois então, existe inflação e existe também inflação real, aumentos de preço acima do aumento médio de preços, isto é, inflação além da inflação!

O que ocorre quando o governo tem um déficit orçamentário, ou seja, quando o governo gasta mais do que arrecada de impostos? Se ele financia esse déficit com emissão monetária, vai aumentar a procura por moeda da economia, porque o PIB foi elevado com os gastos do governo, assim, eleva-se a demanda por moeda por transações, Keynes mostrou isso muito bem, e esse aumento da demanda por moeda vai se compor com a oferta monetária. Mas se o financiamento do déficit orçamentário for pela via da emissão de títulos, o governo tem que oferecer taxas maiores de juros para que o setor empresa se interesse pelos títulos públicos, e com o aumento das taxas de juros os empréstimos para as empresas ficam mais caros e isso faz cair o nível de investimentos produtivos em máquinas, equipamentos, estradas, etc, mas como os juros estão atrativos as empresas compram os títulos públicos, em detrimento de seus investimentos produtivos, é isso o crowding out, é o governo desviando dinheiro da atividade produtiva, dinheiro que poderia ir para investimentos produtivos,  e isso faz a economia encolher!

Se isso existe na verdade? A toda hora , em todos os tempos, e nos melhores governos, aqui e lá no resto do mundo! Quando isso vai acabar? Quando o governo tiver que oferecer algo em garantia dessa farra financeira, por exemplo, ouro, como era no antigo padrão-ouro, ou oferecer emprego, como seria num padrão-emprego, onde o lastro fosse criar emprego como condição de emitir títulos públicos, aí a atividade do governo estaria a serviço da atividade produtiva. Qual a condição para que isso aconteça?  Quando os bancos centrais tiverem que prestar contas a nação e mostrar através de indicadores que suas ações resultam em melhoria da atividade produtiva e do emprego.  Quando vamos ver isso? Quando as pessoas acreditarem que idéias são o que movem o mundo embaixo do Sol!

Ivan Siqueira

 

13 de novembro de 2013

38 - Como é medido o dinheiro

(Ivan Siqueira)



O dinheiro são os meios de pagamento, se tudo pudesse ser pago com batatas, batatas fariam parte do dinheiro, mas não fazem parte, ninguém aceita batatas como meio de pagamento. Os economistas não gostam do termo dinheiro, preferem o termo moeda.

Bem, se batatas não são moeda, o que é moeda? O banco central emite moeda(notas e moedas metálicas), a isto chama-se papel moeda emitido(PME), mas uma parte desse volume de moeda fica no caixa do banco central, não está em circulação, assim, o papel moeda em circulação, é o resultado do papel moeda emitido(PME) menos o caixa do banco central(CBC).

Ocorre que desse papel moeda em circulação(PMC) uma parte dele está no caixa dos bancos comerciais(CBCO), assim, apenas a diferença é o papel moeda em poder do público(PMPP).

Mas, além do PMPP, existe dinheiro em depósitos à vista nos bancos comerciais(DVBCO), e esse somatório é que são os meios de pagamento. Meios de pagamento(MP) são a soma de papel moeda em poder do público(PMPP) mais depósitos à vista nos bancos comerciais(DVBCO). Os economistas dão nomes a cada uma dessas partes, PMPP é chamada de moeda manual, e DVBCO é chamado de moeda escritural.

Quem tem o poder de criar moeda? O banco central tem o poder de criar PMPP, enquanto os bancos comerciais têm o poder de criar depósitos à vista(DVBCO), são essas duas instituições os criadores de moeda! Os bancos comerciais criam moeda fazendo empréstimos baseado no fato de que os depósitos à vista não são todos sacados pelos clientes ao mesmo tempo, e isso permite emprestar parte dos depósitos à vista, ao realizar um empréstimo é criado um novo depósito à vista, e isso é criação de moeda!

Os bancos comerciais fazem seus balanços patrimoniais. Quando realizam um novo empréstimo, exemplo, $1.000,  lançam um depósito no seu passivo no valor de $1.000, e lançam no ativo um empréstimo no valor de $1.000.  O que é essa contabilização? No passivo o depósito é a dívida que o banco tem com seus clientes, enquanto no ativo, o empréstimo é o direito que o banco tem com seus clientes. Com essa operação criaram moeda! É assim que é medido o dinheiro!

Aliás, existem propostas de que o PMPP deveria ser  criado também pelos bancos comerciais. Atualmente, apenas o banco central pode emitir moeda, mas o economista Friedrich A. Hayek, Premio Nobel de Economia de 1974,  escreveu um livro em 1976, “Desestatização do Dinheiro”, onde propõe que os bancos comerciais poderiam também emitir suas próprias moedas.  Assim, aqui no Brasil não teríamos apenas o R$, mas também o ITA$, o SANT$, o BAN$, e outras moedas. Bem, as siglas são apenas uma criação didática aqui do Economeditando, mas o assunto é sério.  Quais as moedas que seriam usadas pela economia? É o mesmo que perguntar, quais os carros que são usados pelas pessoas, qual o sabão em pó é usado pelas pessoas... ? A ideia é a de que a moeda é um produto como qualquer outro e que seria melhor se administrada pela atividade privada, sem o monopólio estatal. Mas, não vamos embarcar nessa sem antes muito economeditar aqui.  Estudo essa questão desde 1978, a edição do livro do Hayek que eu tenho a  comprei  em 1978. Hayek aborda temas muito interessantes, por exemplo, no capítulo VI do livro, ele fala sobre a lei de Gresham, que diz que o dinheiro ruim tira de circulação o dinheiro bom, Hayek considera um equívoco achar que isso torna necessário um monopólio governamental do dinheiro, ele diz, “se fosse esse o caso, a lei de Gresham de fato se verificaria sempre que qualquer produtor fornecesse produtos inferiores...” Bem, não estou defendendo a ideia de Hayek,  é que o Economeditando pretende ser livre de direcionamentos ideológicos, pretendemos aqui discutir ideias, quaisquer que sejam elas...  Vamos dedicar um post apenas  a moeda privada, quem sabe isso seja uma grande ideia? Ou não?

Ivan Siqueira
 



 

37 - Expectativas movem montanhas


(Ivan Siqueira)

As coisas mais simples da economia, não são tão simples! A todo momento existe uma oferta de dinheiro na economia, e ao mesmo tempo uma procura por dinheiro. Os economista preferem chamar o dinheiro de moeda, mas não apenas a moeda metálica, mas o dinheiro em sua totalidade. Mas, o que é o dinheiro? Uma nota de papel? Moedas? Não, dinheiro pode ser tudo o que cumpra três funções: ser um meio de troca, uma unidade de conta e uma reserva de valor.  Assim, toda economia corre um risco, o de ver alguma coisa assumir esse papel, e cumprir essas funções no lugar da moeda oficial, e se a moeda local não cumpre esses papéis, uma outra moeda de fora pode passar a fazer isso!

No passado, havia a economia de escambo, ou seja, de trocas, um cara tinha uma vaca que produzia leite, e esse cara desejava  tratar de dentes, tinha que convencer ao dentista a aceitar litros de leite em troca de serviço dentário! Pior seria o dentista desejar comprar um carro, teria que convencer ao dono da concessionária a tratar de todos os seus dentes, da sua mulher e de seus filhos!  rs rs Era difícil um sistema assim funcionar, aí, surgiram as mercadorias-moedas, uma mercadoria única funcionava como moeda, tudo era pago, por exemplo,  em sal. Mas para comprar um carro, o cara deveria antes construir um galpão pra guardar a quantidade de sal, e como transportar o sal?  Foram várias as mercadorias que serviram como moeda.  Na continuidade dos fatos,  metais preciosos, como o ouro e a prata,  passaram a fazer o papel de moeda, eram duráveis, divisíveis, difíceis de falsificar.. Até que um dia alguém guardou ouro com alguém, e recebeu um certificado de papel que comprovava que o ouro estava em posse do fulano, e esse certificado é a origem das notas de dinheiro, dinheiro com lastro, mais tarde surgiu a moeda fiduciária, dinheiro sem lastro.

Mas, quem deseja ficar com dinheiro? Dinheiro não rende nada, se eu posso aplicar o dinheiro em títulos e receber juros, qual o motivo que as pessoas têm para desejar ficar com dinheiro, ou melhor , reter moeda? Segundo Keynes, são três motivos, ter moeda para pagar as suas transações, ter moeda por precaução, e ter moeda para especulação, por isso é que as pessoas têm uma demanda por moeda.  Entenda bem, demanda por moeda é desejar ter dinheiro em sua posse  para usá-lo quando precisar, esse dinheiro não está sendo usado em nada, quando você o usa, deixa de ser demanda por moeda! Se esse dinheiro não está sendo usado em nada, onde ele está? Está na forma de notas ou moedas metálicas e em depósitos à vista nos bancos comerciais.

Desse total uma parte é demanda por moeda pelo motivo especulação. Quanto? Não se sabe, não existe essa medição, mas é fácil entender por que se guarda dinheiro para especulação. É que o futuro é incerto, e a taxa de juros pode aumentar no futuro, então, o cara prefere ficar líquido no presente, ou seja, reter moeda,  aguardando a subida da taxa de juros.  No total, a moeda retida pelos três motivos, formam a demanda por moeda, a procura da economia por moeda.  Mas, e o resto da renda que não foi gasta em consumo, onde estará essa parcela, se não está na procura por moeda? Está na procura por quase-moeda, mas não é moeda. E o que me permite dizer que depósitos a prazo, poupança, letras financeiras não são moeda, são quase-moeda? É o fato de que não são meios de pagamento, não estão disponíveis como meios de pagamento, apenas moeda manual e depósitos a vista são moeda, é com eles que se pagam as compras.

Por que motivo alguém prefere aguardar o futuro com moeda no bolso(preferência pela liquidez) esperando que a taxa de juros vá aumentar, ao invés de já aplicar em títulos no presente, mesmo com taxas de juros menores? Não é melhor um pássaro na mão do que dois pássaros voando? Em economia monetária não! É que todas as vezes que a taxa de juros se eleva, quem está investido a taxas  de juros menores perde, por duas razões, primeiro porque todo mundo que fez investimentos após o aumento da taxa estará investido com rendimentos maiores , menos ele, o que já estava investido, e segundo, porque com a elevação das taxas o valor dos títulos decresce, o cara  não consegue vender seus títulos ao preço que ele os comprou, mas somente a preços menores, para que compense aos investidores obter as novas taxas que foram elevadas!  Não se esqueça nunca dessa regra: a taxa de juros aumentou, então o valor dos títulos diminuiu!

Qual a conclusão? A conclusão é o que move a economia! É que, se os agentes econômicos esperam que as taxas de juros vão se elevar, aumenta a demanda por moeda para especulação, as pessoas vão reter mais dinheiro! E daí? Daí, que falta dinheiro para títulos no presente! E daí? Daí que a taxa de juros se eleva no presente! Então, você vê o que fazem as expectativas, as taxas de juros se elevam porque esperava-se que elas se elevassem! É uma cadeia de acontecimentos!

O processo inverso também se dá, se a expectativa é de que as taxas de juros vão cair, decresce a demanda por moeda, que vai para a procura de títulos antes que as taxas de juros caiam, e isso provoca queda da taxa de juros, dinheiro demais se oferecendo para títulos. Com a queda das taxas aumenta o valor dos títulos. Você viu, reparou qual é a palavra chave? Expectativas. Expectativas movem montanhas!

Mas, e os economistas, o que podem contra esse estado de coisas? Como não conversamos ainda sobre a oferta de moeda, não sabemos ainda o que é bom ou ruim nesse “estado de coisas”! Isso é apenas a demanda por moeda, mas os economistas podem atuar na oferta da moeda, quem oferta moeda é o Banco Central, e um banco central não pode errar, seus erros podem gerar desemprego, inflação, crises na produção, lembra dos EUA na década de 30?  A taxa de juros resulta do confronto entre  a demanda por moeda e a oferta por moeda.  Vamos tratar da oferta de moeda  aí pela frente, aqui no Economeditando, mas antes precisamos saber,  como é medida a moeda?

Ivan Siqueira

 
 

 

11 de novembro de 2013

36 - Temos o melhor sistema monetário?

(Ivan Siqueira)

A vida só evoluiu quando o homem entendeu que era preciso desenvolver esquemas sociais, padronizar as ações, organizar, configurar a atividade humana. Hoje usamos muito esse termo – configurar – quando nos referimos ao computador, mas desde o início dos tempos configurar era a palavra chave,e, até hoje é assim! Imagine um grupo de meninos que desejam jogar bola em um campinho de futebol, digamos uns dez meninos. Eles entram no campo e  simplesmente começam a jogar. Ninguém sabe pra onde chutar a bola, de repente os dez estão chutando para um só lado, para o mesmo gol, não existe adversário! Não vai dar certo! Mas não é assim, uma simples pelada num campinho de um subúrbio, há uma configuração, joga-se futebol com dois times, cada time tem um goleiro, se são dez meninos, cada time tem cinco jogadores, o time A chuta para o gol do time B, e vice versa, etc, funciona porque foi padronizado. Mas, quem sabe, possa se esquematizar um outro jogo melhor do que o futebol como o conhecemos?

Agora, imagine se eu falo uma frase assim: “Pegsen ak miled ug parcaz”! Que frase é essa, o que significa isso? Não significa nada, porque não é uma linguagem conhecida por mais ninguém! A linguagem também é um sistema social. Foi combinado entre as pessoas que existe um alfabeto, o alfabeto forma sílabas, sílabas formam palavras, as palavras têm um sentido porque se referem a coisas ou ações, etc, a linguagem permite a comunicação humana porque foi sistematizada. Quem sabe, essa linguagem aí acima seja melhor do que as outras!

Um sistema monetário também é isso, não passa de um esquema onde as pessoas combinaram que aceitam expressar valores econômicos e a transacionar umas com as outras com base naquele sistema. Onde você, Ivan, quer chegar? Quero dizer que o papel de um economista é investigar se devemos ou não aceitar um determinado sistema monetário vigente só porque é ele o único que temos? Não estou falando de sistemas políticos, apenas de sistema monetário. Você sabia que existem pessoas convencidas de que os bancos centrais são a desgraça da humanidade? Não sou eu que penso assim, mas, e se essas pessoas têm razão? Vamos ver como é isso.

O primeiro grande impacto é entender que o sistema monetário afeta o sistema produtivo, afeta o desemprego, afeta a inflação, afeta a produção industrial, mas isso não é aceito por todos os economistas, é o que chamamos de neutralidade ou não-neutralidade da moeda. Neutralidade da moeda é acreditar que os movimentos da moeda só afetam os preços, mas não afetam o produto real, o desemprego. Não-neutralidade é o contrário, cada vez que o banco central atua sobre a oferta da moeda, sobre as taxas de juros, ele estará atuando sobre a economia real. Cara, isso é sério demais! Imagine um jovem, dezenove anos de idade, com saúde, forte, disponível ao trabalho, sentado na calçada de sua casa em um subúrbio do Rio, desanimado, tem o semblante triste... Você passa e pergunta a ele, “está doente, amigo?”, e ele responde, “não, estou desempregado, o Banco Central me desempregou!”.
 
O rapaz nunca trabalhou no Banco Central, ele é ajudante de caminhão, o que ele quis dizer é que a política monetária desemprega pessoas! A verdade é que você não vai ouvir aquela frase dita por um desempregado nunca,  as pessoas não conhecem economia, não sabem o que faz um banco central, e o poder que seus atos podem deflagrar de coisas boas para a economia de um país mas também de verdadeiras catástrofes! Na década de 30, a economia norte-americana foi tomada pela mais avassaladora recessão de todos os tempos, na verdade uma depressão, o nível de desemprego atingiu a 25% da população economicamente ativa. Um dos diagnósticos, considerados em análise de Milton Friedman, é de que o banco central dos EUA, o Fed, contraiu a moeda entre 1930 e 1933, quando deveria te-la expandido,  e isso teria sido o que transformou em depressão o que seria apenas uma recessão. Assim, podemos dizer que o banco central jogou milhões de pessoas na rua, além de ter feito 15.000 bancos falirem, não agências, bancos mesmo, e a economia ruiu! 
 
Precisamos investigar onde está o tendão de Aquiles, temos o melhor sistema monetário que poderíamos ter?  Como sabe-lo, precisamos entender como a coisa funciona, vou tratar disso,  vou falando, vou falando... me pergunto, me respondo... a ciência que aprendi sempre na frente, mas minha curiosidade sempre atrás!

Ivan Siqueira


10 de novembro de 2013

35 - Basta apenas produzir, ou não?

(Ivan Siqueira)
 Demanda é demanda, não é desejo de demandar! O que configura a demanda de qualquer coisa, de produtos, de moeda, de investimentos, é efetivamente aquela coisa ter sido comprada, se havia apenas uma vontade de comprar, mas se a compra não se efetivou, não houve demanda! Assim, esse termo demanda efetiva é redundante, toda demanda é efetiva!

E a oferta? Você já ouviu alguém falar em oferta efetiva? Eu nunca ouvi, nem li sobre isso! Estranho, né? Por que somente a demanda é efetiva? Quando se dá a oferta? Oferta também não é apenas desejo de ofertar, mas em que momento a oferta se torna oferta efetiva? Aparentemente é quando o produto ou serviço ficou pronto e foi colocado a venda no mercado!  Então, suponha que uma latinha de cerveja foi produzida e foi oferecida no mercado pelo valor de venda de R$4,00, e que dentro desses R$4,00 aproximadamente R$2,60 são salários pagos aos empregados da fábrica, e R$1,40 seja de lucros dos proprietários da fábrica. Estamos supondo que a renda seja formada apenas de salários e lucros, e desconsiderando juros e aluguéis que são, também, parte da renda, mas, para efeito de simplificação, nossa renda é formada apenas de salários mais lucros. Assim, no nosso exemplo, salários são 65% da renda e lucros são 35%. Não é muito diferente da realidade.

Na minha época de faculdade,  nos intervalos de aulas, sentávamos em uma calçada interna do pátio e ficávamos economeditando sobre as aulas, que tempo bom! Alguns de meus colegas  gostavam de dizer que os operários, coitados, não tinham poder de comprar nem aquilo mesmo que eles produziam, que não podiam comprar nem o edifício que eles próprios construíam com o seu suor! É uma grande observação esta,  é uma grande verdade, a latinha custa R$4,00 e o trabalhador ganhou apenas R$2,60, não pode comprar a cerveja que ele mesmo trabalhou e fabricou, é lógico, sempre haverão lucros em cima dos custos, e o trabalhador não tem a parte dos lucros! Salários são a remuneração do trabalho, lucros são a remuneração de capitalistas pelo uso de seus capitais! A soma de salários e lucros é a renda, ou a produção, ou a despesa, são iguais. Mas, de forma mais completa, a renda é o somatório de salários, juros, aluguéis e lucros. Em nosso exemplo estamos fazendo uma simplificação.  

Ali naquela calçada, nos momentos de lazer, no intervalo das aulas, fazíamos de tudo, paqueras, piadas, trocávamos opiniões sobre a vida nacional, e havia um dos estudantes de economia bastante diferenciado, ele questionava permanentemente o capitalismo, e de uma forma sempre muito inteligente, falava baixo, de modo concentrado, e tinha argumentos que, via-se, eram resultado de estudos que ele fazia, mas ele tinha uma outra particularidade, sempre aparecia com um violão(de onde saía aquele violão?), sentava-se ali naquela calçada, e com o seu violão tocava e cantava belíssimas canções que ele compunha, era um desconhecido, só sabíamos que ele era filho do rei do baião, Luiz Gonzaga, ele era o Gonzaguinha. Sua música é muito parecida com o que ele realmente era!

Mas, voltando para o assunto desse post, os que acham que os trabalhadores não têm a renda suficiente para comprar o que eles próprios produziram, esquecem de ver, que o capitalista, então, tem menos ainda,  a latinha está sendo ofertada a R$4,00, mas o capitalista só ganhou R$1,40, também não compra a latinha de cerveja que o empreendimento dele produziu, porque o capitalista não é o dono dos salários, apenas dos lucros, pra comprar a latinha ele teria que pegar emprestado os salários dos trabalhadores! Mas, trabalhadores e capitalistas, uni-vos, porque juntos vocês têm a renda necessária para demandar o que ofertaram!

Aí, entra em cena, a lei de Say, “a oferta cria sua própria procura”. Dizem que Say jamais disse isso textualmente, mas com toda certeza pensava isso, e escreveu sobre isso!  Mas e a cerveja? Ofertaram por R$4,00 a latinha, e têm poder de demanda de exatamente R$4,00, ou seja, o ato de produzir gerou uma renda suficiente(R$2,60 + R$1,40) para comprar a oferta(produção). Não pode haver crise econômica, tudo o que é produzido gera a renda pra comprar a produção! Senão, vejamos o que Say disse:  “tão logo um produto seja criado, nesse mesmo instante gera um mercado para outros produtos em toda a grandeza de seu próprio valor”. Você viu, citei o texto dele, basta produzir, a produção(ou oferta efetiva), gera uma demanda efetiva de mesmo valor, mesmo que vá ser usada em outras partes do mercado, em outros produtos . Aí, meu caro amigo internauta, a ideologia tomou conta da vida! Era tudo o que os adeptos do capitalismo precisavam para defender o capitalismo, a frase veio para a ponta da língua da boca do mundo: o capitalismo não gera crises, porque a oferta cria sua própria procura!  Se o capitalismo é bom ou ruim, estamos todos interessados em saber, quem souber avise ao outro, mas antes temos uma tarefa: como questionar a lei de Say?

 David Ricardo e Adam Smith acolheram a lei de Say, mas Malthus e depois Keynes a recusaram. A oferta não cria sua própria procura, contestando os economistas clássicos. Enquanto a economia clássica é uma economia da oferta efetiva, a economia keynesiana é a economia da demanda efetiva. Não adianta apenas produzir, a demanda tem renda para comprar a produção, mas comprou?  Vou seguir nessa história, mas agora vou ouvir a canção “O Trem”, do meu colega Gonzaginha, ela não fala de Say, nem ao menos de economia, mas fala de um mundo melhor!  Volto ao assunto a qualquer momento. Quem teve peito de contestar a lei de Say? Ricardo e Malthus eram amigos e trocavam cartas, Ricardo defendia a lei de Say, mas Malthus mostrou que enxergava longe!

Ivan Siqueira

9 de novembro de 2013

34 - Estou de volta

Olá, amigos do blog Economeditando! Por necessidade do meu trabalho, bem como de uma pesquisa na área de economia internacional, estive impossibilitado de continuar a atividade do blog, não havia tempo hábil para o blog. Senti muito, porque pensar a Economia é das tarefas que mais me alegram, certo que estou de que muito a teoria econômica necessita de reflexões permanentes de todos os que se dedicam a esta profissão que, com certeza, é a maior esperança de um mundo melhor! Estou de volta, agora com alguma parte do meu tempo disponível ao blog.

Nessa volta, pretendo atuar em duas frentes, na análise do pensamento econômico, como o blog encaminhou-se até aqui, mas, também, com abordagens sobre a teoria econômica de forma dissertativa, ou apenas explanatória, mas de um modo didático que possa ser útil a estudantes, sempre ressalvando que a formação de um economista é dada por sua universidade e por seus professores, que são insubstituíveis, faça de sua visita aqui ao blog, e o considere, apenas um campo de confronto entre idéias, no sentido de alargar e, mesmo, permitir explanações e investigações que possam contribuir com o corpo de conhecimentos sobre teoria econômica.

Nessa volta, pretendo ainda, apresentar exercícios e problemas que possam contribuir com a discussão aqui apresentada. E, ainda, o desenvolvimento de aplicativos Excel, que permitam a resolução de modelos econômicos! O blog será aberto a comentários, mas moderados por mim, com o intuito de que só sejam apresentados os comentários julgados colaboradores com a discussão que aqui pretendemos realizar, destacando que não haverá nenhuma justificativa ou esclarecimentos quanto aos comentários que não atendam ao bom andamento dos trabalhos do blog, e que, portanto, não serão apresentados. Caberá ao moderador, julgar através de critérios que levem em consideração a didática, a fidelidade dos assuntos a teoria econômica, e outros fatores, e, assim, publicar ou não um comentário. Mas, todos são convidados a participar dessa discussão.

Abraço a todos,
Ivan Siqueira

22 de março de 2012

33 - A greve e a sua resposta

(Ivan Siqueira)

É muito interessante o que houve na semana que passou. A prefeitura de São Paulo decidiu restringir a circulação de caminhões por vias muito importantes da cidade, como a Marginal Tietê, em horários de pico, e os caminhoneiros, em represália, fizeram greve, reivindicaram direitos, etc., resultado: escassez de combustível nos postos, e, aí, aumento no preço da gasolina. Qual o problema? Quem quiser que pague o preço elevado, se não quiser não saia com seu carro. Parece que é só isso, mas não é, a economia é viva, tem braços, pernas e mãos, e vai a luta, e a luta tem conseqüências.

Todas as vezes que o preço de qualquer mercadoria aumenta, por escassez daquele produto, a própria escassez já está causando um desequilíbrio no mercado e na economia, basta considerar que o mercado consumia um volume X daquele produto e se vê de repente sem parte desse consumo, seja qual for a razão, não precisa ser por greve de caminhoneiros, sub-consumo gera desequilíbrio na economia, até que os mecanismos de mercado venham reequilibrar a situação, mas o problema já foi causado, e, por um encadeamento de fatos, o desequilíbrio capilarmente se estende a outros setores da economia.

Mas, isso não é tudo. Toda vez que o preço de um produto aumenta, se não há aumento de renda, o consumidor não pode comprar aquele produto na mesma quantidade que comprava antes do aumento, porque não pode gastar mais do que sua renda permite, assim, ele tem duas alternativas, ou consome menos daquele produto, o que reduz a demanda, ou alternativamente, continua comprando o mesmo volume de antes do aumento de preço, mas, obrigatoriamente, reduz sua demanda de outros produtos que ele também compra. Ou seja, não tem mágica, a renda só dá pra comprar o que ele já comprava antes do aumento de preço, assim, todo aumento de preço é uma perturbação para o mercado e para a economia como um todo, a não ser que concomitantemente haja aumento da renda, no curtíssimo prazo não há aumento de renda, se o consumidor aceita os novos preços elevados, está causando problemas na demanda de outros bens e serviços. Um grevista não sabe disso, pensa que está apenas tentando resolver sua questão particular, e o dono do posto, ao aumentar o preço do combustível escasso, não acha que esteja causando nada nem obrigando ninguém a comprar seu produto, mas a economia é mais do que isso...e se movimenta com seus mecanismos.

Assim, toda ação que faça elevar o preço de determinado produto, é francamente prejudicial a cadeia de equilíbrio, por que, ou um aumento de renda vem em socorro à manutenção dos níveis de consumo, ou o consumo global inevitavelmente vai ser reduzido. Nessa afirmação não há posicionamento ideológico ou político, é matemática simples! Uma greve que leve a escassez de uma determinada mercadoria tem um efeito apenas localizado, mas esse mesmo efeito em proporções maiores conduz a ineficiência de demanda , que tanto incomodou a Malthus, Keynes, Kalecki e outros pensadores.

Greve é mecanismo legítimo, um direito de todos, assim como são legítimas as reações da economia a uma greve, é toma lá dá cá!
Ivan Siqueira

14 de janeiro de 2012

32 - A Economia é igual a Física

(Ivan Siqueira)

Há que se repensar tudo na vida, a não ser que as coisas andem na linha! É visível a fragilidade da economia, que já foi motivo até de piadas, uma delas diz que, se dois economistas concordam, é que um não entendeu bem os conceitos do outro!

O assunto nos remete para a dúvida de se a Economia seria, de fato, uma ciência. Bem, se não é, tem que ser! E se não é, em que ponto ela deixa de ser? É preciso investigar passo a passo, ponto por ponto, conceito por conceito, para que a fragilidade, a rachadura, seja desvendada.

Não critico a economia enquanto ciência, estou convicto de que ela é, verdadeiramente, uma ciência, chamar de “exata”, aí já são outros quinhentos. Mas, quem é ciência exata? A Matemática! Mas, quem mais? Na verdade, não existe uma ciência inteiramente exata, apenas partes de uma ciência são exatas. Com a Economia, acontece exatamente o mesmo, por exemplo, a lei da oferta e da procura é exata. Mas, o que nos diz essa lei? Nos diz que a preços maiores do que o preço de equilíbrio, a oferta é maior, mas a procura é menor, o que traz os preços caírem de volta ao equilíbrio. Da mesma forma, a preços menores do que o preço de equilíbrio, a procura é maior, mas a oferta é menor, o que faz os preços subirem até o preço de equilíbrio. Isto é tão exato como uma lei da física que diz que “a força necessária para acelerar um corpo é diretamente proporcional a sua massa”, segunda lei de Newton.

Mas, a pergunta que Newton deve ter feito a si mesmo, pode ter sido: mas em que condições? Sei lá se Newton se perguntou sobre isso! O que sabemos atualmente é que as leis da Física podem não ser tão exatas quanto se imaginava. Novos dados analisados pelos telescópios Hawai Keck e Chile Extremely Large podem mudar todo o conceito de leis da Física, a partir desses dados há de se considerar de que ponto do Universo estamos nos referindo, e a Teoria Geral da Relatividade, formulada por Albert Einsten, ameaça a Física de ser considerada ciência não exata, essas novas descobertas remetem a que as leis da Física podem ser diferentes dependendo do ponto em que você está no Universo! Erraram os físicos? Não, apenas deixaram de observar certas condições!

E a Economia, o que tem há ver com isso? Tem tudo há ver. Em qualquer ciência há de se considerar as condições “ceteris paribus”, ou seja, tudo o mais sendo considerado à parte. Sim, jamais existirá uma ciência que desconsidere a condição “ceteris paribus”, seria o primeiro erro da ciência! Assim, até a lei da oferta e da procura é frágil, se não lhe impomos certas condições. O papel de um economista é ter uma questão sob análise científica, mas sem perder de vista a questão mais fundamental, e tal como os físicos se perguntar: em que “universo” estamos?

26 de setembro de 2011

31 – Contabilidade do petróleo

(Ivan Siqueira)


Um economista precisa estar atualizado com sua profissão, e essa atualização se estende a áreas correlatas da economia. Se somos economistas financistas, aí o conhecimento de Contabilidade é muito importante, vamos tratar de dados, de séries de dados, que têm origem na contabilidade. Bem, a contabilidade, em si, não tem sofrido alterações que possamos classificar como importantes que mereça um reestudo, uma vez que na faculdade temos a matéria Contabilidade, mas nesta semana que passou me deparei com algo absolutamente novo, o lançamento do primeiro livro em língua portuguesa sobre contabilidade no setor petróleo, o livro se chama “Contabilidade de Petróleo e Gás”, de Adriano Rodrigues e Carlos Eduardo Silva, publicado pela CENGAGE Learning.

Isso é uma grande novidade, não havia até esse lançamento um livro específico sobre contabilidade do petróleo. O livro tem muitas qualidades, e, tanto assim é, que foi prefaciado por Eliseu Martins, do meu ponto de vista, o maior nome da contabilidade em nosso país. Foi com ele que fomos todos alertados, no final dos anos 80, para os efeitos que a inflação proporciona ao lucro contábil e a alavancagem financeira sob o aspecto contábil. Foi a primeira vez que vi questões econômicas sendo tratadas pelo olhar da contabilidade, Eliseu se tornou uma referência para mim. Assim, receber prefácio de Eliseu Martins já é um sinal de valor do trabalho.

E o livro “Contabilidade do Petróleo e Gás” tem mesmo esse valor. Escrito de forma didática e direta, sem rodeios, tudo o que aborda era necessário. O livro apresenta ótimas noções do mercado de petróleo e gás, dos gastos associados à indústria do petróleo, e a partir daí, aborda os métodos contábeis aplicados nas atividades de extração e produção de petróleo e gás, entre outros , o método full cost accounting.

A abordagem não se limita as normais contábeis brasileiras, o livro trata também de vários tópicos sobre normas internacionais de contabilidade aplicadas à indústria do petróleo. E termina o livro, tratando do caso específico da Petrobrás e os efeitos das mudanças nas demonstrações financeiras da companhia.

Bem, para mim foi uma ótima atualização, saber como os hidrocarbonetos recebem créditos, débitos, saber da classificação dos gastos em gastos de geologia, gastos exploratórios, poços de desenvolvimento, gastos de instalação, gastos de produção, e muito mais. O livro essencialmente contábil, até nos incentiva a desenvolver outros trabalhos, como um livro de Finanças do Petróleo, que seria uma ótima continuidade, fica minha sugestão.

Ivan Siqueira

25 de setembro de 2011

30 - O que é desvalorização do real?

(Ivan Siqueira)

Os economistas tem o seu linguajar, que ficou conhecido como “economês”, e isso nem sempre é do alcance de todos. Nosso blog é para todos, assim, vamos esclarecer um conceito importante, o da desvalorização de uma moeda. Você ouve a toda hora no jornal da televisão, "o real sofreu uma desvalorização de 0,4%", pronto, já dificultou o entendimento do assunto! Mas entender o que é a valorização/desvalorização de uma moeda é muito importante!

Toda moeda tem uma taxa de câmbio, que significa o preço de uma moeda estrangeira expresso em moeda nacional. Assim , podemos dizer que US$1 dólar custa R$1,72, por exemplo. Então, essa é a taxa de câmbio. Perguntamos, o que ela representa, o preço do dólar, ou o preço do real? Representa o preço do dólar. Se desejamos saber o preço do real, devemos dividir 1 por 1,72, fazendo a conta aqui na minha calculadora comprada no camelô, vai dar... US$0,58, ou seja, R$1,00 = US$0,58, esse é o preço do real. Mas, a taxa de câmbio não é o preço do real, mas o preço do dólar: US$1,00 = R$1,72, ou seja, o preço de qualquer moeda estrangeira cotada em real.

Agora, suponha que no período de um mês a taxa de câmbio passou a US$1,00 = R$1,92. O que houve? Tá na cara que houve uma valorização do dólar , ele valia R$1,72 e agora vale R$1,92, mas cuidado, esse não é o linguajar dos economistas, o que você vai ouvir é que houve uma desvalorização do real. Vamos ver, qual é o valor do real agora? Basta dividir 1 por 1,92, fazendo a conta na minha maquininha, dá R$0,52. Você vê, o real valia US$0,58 e agora está valendo US$0,52, o real foi desvalorizado, isto é, o real agora compra menos dólar. Qual a taxa percentual de desvalorização?
(0,52/0,58 – 1) x 100 = - 10,3%

O real sofreu uma desvalorização de 10,3%. Sempre que a taxa de câmbio aumenta é desvalorização do real.
Mas, isso não é tudo. E qual foi a valorização do dólar?
(1,92/1,72 – 1) x 100 = 11,6%
O dólar se valorizou em 11,6%, mas os economistas raramente vão desejar se referir a isso, o que você vai ouvir é “a taxa de câmbio aumentou em 11,6%“, ou vai ouvir que “o real sofreu uma desvalorização de 10,3% com a subida do câmbio”.
Fique esperto, economês é fácil, pelo menos aqui no Economeditando, promessa de escoteiro*!

Ivan Siqueira

* Dizem que um escoteiro cumpre tudo o que promete!

29 - Nem touros, nem ursos

(Ivan Siqueira)

Idéias são idéias, não passam de idéias! O problema é que algumas idéias podem mudar o rumo das coisas, e mudam, e, às vezes, mudam para pior! Não devemos acreditar em tudo sem antes questionarmos o tudo! E, até essa minha idéia, também merece ser questionada, claro!

Uns plasmam idéias, conceitos, e outros repetem esses conceitos, que nem sempre são verdadeiros, algumas vezes são idéias plasticamente bonitas, fazem efeito, mas contém pouco de verdade. Na macroeconomia, por exemplo, existe uma expressão que agrada a todo mundo, é “desenvolvimento auto-sustentável”, quando a gente lê isso pela primeira vez, dá vontade de sair repetindo isso, de tão bonito que é essa expressão, assim, você ouve isso na boca de ministros, presidentes, senadores, e muita gente boa, basta vermos as entrevistas que eles dão, ficou registrada lá no jornal, na TV, eu tenho vários depoimentos guardados de pessoas que propõem caminhos para se atingir o "desenvolvimento auto-sustentável", sem saber que isso não existe! Foi falado um dia por alguém, vem lá da década de 70, e a partir daí, todo mundo enche a boca e manda: “assim atingiremos o desenvolvimento auto-sustentável!”. Mas a teoria do desenvolvimento não parou na década de 70, muita água já rolou!

Não existe desenvolvimento auto-sustentável, pela simples razão de que os mecanismos que geram o desenvolvimento são os mesmos que têm necessidade de encerrar o processo de desenvolvimento, a acumulação de capital se esgota, e deflagra o processo inverso, ou seja, não crescer em determinados períodos é o que permite crescer em outros períodos, assim, crescimento e estagnação andam de mãos dadas a vida toda, precisam um do outro! Mas, vem alguém e tenta nos iludir: estamos quase atingindo o desenvolvimento auto-sustentável! Poderíamos perguntar: em que galáxia?

Conceitos que não são verdadeiros, existem aos montes por aí, e nós devemos saber nos proteger dessas idéias, sempre plasticamente belas, mas frágeis. Na atividade de compra e venda de ações na Bolsa de Valores, está cheio disso! Só existe bolsa porque os preços caem e sobem, caem e sobem, quando os preços caem é a condição para que eles subam mais à frente! É cíclico, eternamente cíclico! Criou-se uma idéia de que na bolsa de valores uns lutam contra outros, criou-se até a figura da luta, touros contra ursos! Que é bonito é, o touro movimenta o chifre de baixo para cima (os altistas) e o urso dá paulada com a pata de cima para baixo (os baixistas). O visual impressiona, mas não existe isso na bolsa, não há disputa de ninguém contra ninguém em nenhuma bolsa de valores. A disputa é de todo mundo com a sua inteligência, ninguém ganha o dinheiro de ninguém, no ato de uma operação, naquele exato momento em que um vendeu e o outro comprou, há, apenas, uma troca de mesmo valor, não há nem perdedores nem ganhadores, se o tempo para ali, um saiu com um valor e o outro ficou com o mesmo valor, o futuro é que vai dar ganhos a um e perdas ao outro! A disputa não é de altistas contra baixistas, não há disputa de ninguém contra ninguém, o dinheiro que um comprador ganha na bolsa não é de quem vendeu a ação para ele, e vice versa, você ganha do futuro, e quando perde, perde para ele também, o que há, é apenas troca de posse! No mercado não há disputa entre pessoas ou grupos, há apenas erros e acertos, em toda operação alguém fez uma coisa certa, o outro fez uma coisa errada, não existem dois fazendo a melhor coisa para cada um, como se fosse possível em uma operação os dois saírem ganhando, o que vendeu diz, “fiz um ótimo negócio vendendo”, e o outro diz, “fiz um ótimo negócio comprando!”, isso não existe, apenas um deles fez um bom negócio, o outro fez um péssimo negócio, sempre. Mas o ganho será dado pelo futuro, o outro está fora do futuro, perdeu para ele mesmo. Mas, isso não é disputa entre os dois, é disputa de cada um com sua inteligência , seu conhecimento, por isso os chamados insiders sempre ganham, mas não ganham dos outsiders como se diz, ganham deles mesmos!

O que você compra na bolsa? Compro ações de empresas. Não, apenas parece que é isso, você compra o futuro! Quando você compra um papel, está comprando um futuro que pode ser bom ou ruim, mas quando você vende, está ficando apenas com o dinheiro que não quis colocar no futuro. As pessoas dizem assim: "Cara, vendi hoje com um ganho fantástico, eu tinha comprado o papel ao valor de..." Esse pensamento é o maior equívoco, porque o ganho financeiro não está no passado, está sempre no que ainda vem. E, também, não está apenas em suas ações na vida, mas inclusive na sua falta de ações na vida! Ocorreu um boom no valor dos imóveis, todo mundo que comprou imóveis ganhou, você não comprou, então perdeu! Não adianta pensar que não perdeu, se tivesse aproveitado o boom de preços estaria melhor do que está hoje, então, é certo, perdeu! Na bolsa é a mesma coisa, você perde e ganha com o que ainda está por vir, e com o que deixou de fazer! É sempre o futuro, o que determina tudo, o que vai valer é o que ainda vem pela frente! Touros e ursos, é apenas um visual, como se a luta fosse com outros, que é bonito é, mas não passa de bonito!

Ivan Siqueira

28 - A Teoria da Classe Ociosa

(Ivan Siqueira)


Alguns pensadores são mesmo geniais. Eu fiquei sabendo da existência de Thorstein Veblen, através da leitura dos livros de John Kenneth Galbraith. Galbraith fez muito sucesso com seus livros, que seguem um pouco a linha de Veblen,mas não me lembro se foi no "A Era da Incerteza" ou no "The Affluent Society", mais provável que tenha sido neste último.

Veblen era um pensador multidisciplinar, misturou sociologia com filosofia e economia, e fez uma obra genial. Sem falar que ele era darwinista, e faz explorações em sua obra usando os conceitos e critérios de Charles Darwin. Ele é nascido em Wisconsin, nos EUA, mas é filho de noruegueses.
Em 1884 ele obtinha o doutorado na Universidade de Yale. Trabalhou na Universidade de Chicago, mas foi expulso por manter relações sexuais com alunas da escola. Em Standfor foi mandado embora porque ele criticava os homens de negócio, os empresários. Ele nunca passou do cargo de professor auxiliar, mas sua pontencialidade como pensador era tamanha que foi escolhido por outros economistas para ser o presidente da American Economic Association.

Sua mais famosa obra é intitulada de “The Theory of the Leisure Class” e foi publicada em 1899. Ele é considerado o precursor da escola chamada de escola institucionalista do pensamento econômico. Essa corrente do pensamento teve como maiores expoentes John R. Commons e Wesley C. Mitchell.

Veblen via a sociedade e a economia como formada por instituições, mas não necessariamente instituições empresas, órgãos, uma instituição era qualquer padrão organizado de comportamento coletivo, como escolas, prisões, bancos, e até a família. E assim ele criticava o pensamento dos economistas neoclássicos que viam a economia através de leis imutáveis, equilíbrio, esses conceitos estáticos. Então ele parte de Darwin e propõe que o fundamental era descobrir o movimento da evolução das instituições econômicas. E daí, nasce a sua teoria da classe ociosa, classe que ele criticou, mas não apenas os ociosos, mas os empresários ausentes(aqueles que não querem nada com o trabalho, e deixam a empresa na mão de outros e só desejam o lucro), e também o problema da ostentação, de uns desejarem ser melhores do que outros, e do consumo conspícuo, desenfreado. Ou seja, Veblen foi um crítico dos verdadeiros problemas que a sociedade ela própria constrói. Ele era um escritor voraz, e com a característica de que tudo era inédito em seu pensamento, um pensador original. Ao contrário do que se pensa, ele não era um pensador marxista, criou a sua teoria como alternativa ao marxismo, ele propunha uma espécie de “socialismo de engenheiros”, que ele acreditava serem os únicos capazes de levar a produção avante e sem a interferência da classe financeira e seus interesses no lucro.

Eu diria que a escola institucionalista merece análises atuais, e continuidade de pesquisa. Aí tem coisa que me parece uma bandeira de muito valor!

Ivan Siqueira

Sua obra literária em filosofia, sociologia e economia:

"Kant's Critique of Judgement", 1884, Journal of Speculative Philosophy
"Some Neglected Points in the Theory of Socialism", 1891, Annals of AAPSS
"Bohm-Bawerk's Definition of Capital and the Source of Wages" , 1892, QJE.
"The Overproduction Fallacy", 1892, QJE
"The Food Supply and the Price of Wheat", 1893, JPE
"The Army of the Commonweal", 1894, JPE
"The Economic Theory of Women's Dress", 1894, Popular Science Monthly
"Review of Karl Marx's Poverty of Philosophy", 1896, JPE
"Review of Werner Sombart's Socializmus", 1897, JPE
"Review of Gustav Schmoller's Uber einige Grundfragen der Socialpolitik", 1898, JPE
"Review of Turgot's Reflections", 1898, JPE
"Why is Economics Not an Evolutionary Science?" , 1898, QJE.
"The Beginnings of Ownership" , 1898, American Journal of Sociology .
"The Instinct of Workmanship and the Irksomeness of Labor" , 1898, American Journal of Sociology . (copy)
"The Barbarian Status of Women" , 1898, American Journal of Sociology .
The Theory of the Leisure Class: an economic study of institutions, 1899 - Copy (1) ; (2)
"The Preconceptions of Economic Science", Part 1 (1899),Part 2 (1899) , Part 3 (1900), QJE;
"Industrial and Pecuniary Employments", 1901, Publications of the AEA
"Gustav Schmoller's Economics", 1901, QJE
"Arts and Crafts", 1902, JPE
"Review of Werner Sombart's Der moderne Kapitalismus", 1903, JPE
"Review of J.A. Hobson's Imperialism", 1903, JPE
"An Early Experiment in Trusts", 1904, JPE
"Review of Adam Smith's Wealth of Nations", 1904, JPE
Theory of Business Enterprise , 1904 - Copy (1), (2)
"Credit and Prices", 1905, JPE
"The Place of Science in Modern Civilization", 1906, American J of Sociology
"Professor Clark's Economics", 1906, QJE
"The Socialist Economics of Karl Marx and His Followers", Part 1 (1906), Part 2 (1907), QJE
"Fisher's Capital and Income" , 1907, Political Science Quarterly .
"The Evolution of the Scientific Point of View", 1908, University of California Chronicle
"On the Nature of Capital", 1908, QJE
"Fisher's Rate of Interest" , 1909, Political Science Quarterly .
"The Limitations of Marginal Utility" , 1909, JPE.
"Christian Morals and the Competitive System", 1910, International J of Ethics
"The Mutation Theory and the Blond Race", 1913, Journal of Race Development
"The Blond Race and the Aryan Culture", 1913, Univ of Missouri Bulletin
The Instincts of Worksmanship and the State of the Industrial Arts, 1914.
"The Opportunity of Japan", 1915, J of Race Development
Imperial Germany and the Industrial Revolution, 1915.
An Inquiry into the Nature of Peace and the Terms of its Perpetuation, 1917.
"On the General Principles of a Policy of Reconstruction", 1918, J of the National Institute of Social Sciences
"Passing of National Frontiers", 1918, Dial
"Menial Servants during the Period of War", 1918, Public
"Farm Labor for the Period of War", 1918, Public
"The War and Higher Learning", 1918, Dial
"The Modern Point of View and the New Order", 1918, Dial
The Higher Learning In America: A Memorandum On the Conduct of Universities By Business Men , 1918 - (1) .
The Vested Interests and the Common Man , 1919
"The Intellectual Pre-Eminence of Jews in Modern Europe", 1919, Political Science Quart
"On the Nature and Uses of Sabotage", 1919, Dial
"Bolshevism is a Menace to the Vested Interests", 1919, Dial
"Peace", 1919, Dial
"The Captains of Finance and the Engineers", 1919, Dial
"The Industrial System and the Captains of Industry", 1919, Dial
The Place of Science in Modern Civilization and other essays, 1919.
"Review of J.M.Keynes's Economic Consequences of the Peace , 1920, Political Science Quarterly
The Engineers and the Price System, 1921. (PDF version)
Absentee Ownership and Business Enterprise in Recent Times: the case of America, 1923.
"Economic theory in the Calculable Future", 1925, AER
Essays in Our Changing Order, 1927.