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23 de setembro de 2011

24 - Eratóstenes, esse maluco!

(Ivan Siqueira)

Economia é uma ciência , e ciência se faz com medidas. Mas, muito antes do advento da Economia como ciência(1776), outras ciências já faziam medidas impressionantes! Acabo de me lembrar de Eratóstenes, esse maluco! Um grego que foi filósofo, historiador, matemático, astrônomo, bibliotecário. Ele morreu no ano de 197 a. C. Esse cara mediu o perímetro da Terra, dois séculos antes de Jesus nascer! O pensamento pode tudo!Esse cara, só tinha um bastão e conhecimento científico, mais nada!

Ele vivia no Egito, em Alexandria, mas estando na cidade de Siena, verificou que ao colocar um bastão enterrado no solo, ao meio-dia, não havia sombra do bastão. Ele foi para Alexandria, colocou o bastão, ao meio-dia, e verificou que havia uma sombra do bastão. De cara ele já matou uma coisa: a Terra não é plana, se fosse, as sombras seriam iguais!

Aí, ele mediu o ângulo formado pela sombra do bastão em Alexandria, e verificou que tinha aproximadamente 7º (graus), e entendeu que essa diferença representava a distância entre as duas cidades, e, mais, sua proporção com o perímetro da Terra. A distância entre Siena e Alexandria era conhecida por todos, era de 5.000 estádios. É que não se mediam grandes distâncias com quilômetros, mas com essa medida estádio, que era o tamanho de um estádio grego, daqueles onde se faziam as olimpíadas, etc.

Aí, ele viu que 7º representa aproximadamente 50 pedaços de 360º. O que era esse 360º ? Era a Terra como um todo. Então a distância entre as duas cidades era 1/50 da Terra. Então, ele fez uma continha simples, multiplicou 50 x 5.000 estádios, e encontrou 250.000 estádios. Ele então anunciou, o perímetro da Terra tem 250.000 estádios! Estava dito e encerrado seu trabalho.

Voltemos para os dias de hoje. O tamanho dos estádios gregos era variável, mas os estudiosos sabem que o mais padrão era o estádio com 160 metros, então, em 1 Km cabem 6,25 estádios, e como Eratóstenes mediu a circunferência da Terra em 250.000 estádios, dividindo por 6,25, dá 40.000 quilômetros, que seria o perímetro da Terra em quilômetros. Hoje em dia, por processos modernos, a medida da Terra circundada pelo Equador, é perfeitamente calculada, é de 40.072 quilômetros! Não há erro nas contas de Eratóstenes (o erro é de 0,2%, desprezível)!

O cara só tinha um bastão e ciência na cabeça! Aplausos para esse maluco!

Nota: Siena é uma cidade que mudou de nome, hoje chama-se Assuam. A distância entre Assuam e Alexandria é de 800 kms. Será que é 5.000 estádios divididos por 6,25? Na mosca!

Ivan Siqueira

17 - Dois tempos, duas lições

(Ivan Siqueira)

Houve uma época em que eu escrevi vários artigos sobre economia para um conhecido e importante jornal do país. Os artigos versavam sobre economia, mercado financeiro e finanças de empresas. Eu enviava meus textos diretamente para o editor de economia do referido jornal. Quase sempre, o texto era publicado um ou dois dias após. Eu comprava o jornal e levava o texto para a universidade onde dava aulas de finanças, e discutia o texto com os alunos.

O jornal tinha alcance, era lido por todo o mundo financeiro, e eu me lembro de um artigo onde eu questionava determinado ponto da política de controle de preços, e por uma coincidência, no dia em que o jornal publicou meu texto, eu tinha um encontro com o professor Mário Henrique Simonsen, na sua sala de trabalho, tratávamos de outro assunto, eu estava acompanhado de um colega, e o professor me surpreendeu dizendo que ele tinha lido meu artigo pela manhã, e que eu tinha razão no meu questionamento. No táxi, de volta para a empresa onde eu trabalhava, meu colega disse: Cara, aprovado por Simonsen! E eu disse: É, alguém tem que gostar!(e rimos).

Mas, nem tudo são flores. Até que um dia, um dos textos não foi publicado pelo jornal. Três ou quatro dias se passaram e o texto não foi publicado. Liguei para o jornal e procurei saber do editor, qual teria sido o problema, e ele me disse mais ou menos assim:
- Sabe, Ivan, esse texto está muito técnico, é só para economistas, mas o jornal é lido por todo mundo, sabe como é que é, você pode tornar o texto mais accessível? – pediu ele.
Bem, eu não tornei o texto mais accessível, não por vontade de não fazê-lo, não conseguia mesmo, alguns pensamentos não são fáceis de serem transmitidos a não ser pela via técnica. Ficou sem publicação esse texto. Mas serviu de lição: não escreva para economistas!(risos)

Agora, na semana passada, encontrei um velho amigo, e almoçamos juntos, e eu falei do blog Economeditando. Ele é médico. No mesmo dia ele acessou o blog e me mandou um e-mail:
- Ivan, gostei do seu blog, mas não entendi nada.

No seu e-mail, meu amigo médico me diz que ele gostaria sim de entender os princípios da economia e finanças, dizendo que pelo fato de que ele é sócio cotista de uma clínica médica, necessita entender o que acontece com o mundo financeiro, etc. Ele diz, que não entende essa coisa de juros, banco central, câmbio... o que não é de se admirar. Em minha resposta ao meu amigo, eu prometi que vou escrever um texto sobre o assunto de interesse dele, e já adiantei para ele o nome do post, eu disse, procure por “O que está por detrás da moeda”. Essa, estou devendo a ele!

Bem, alguns anos depois da primeira lição lá com o jornal, eu recebo essa outra lição. Não faço o blog Economeditando para economistas, escrevo para exercitar o pensamento, a ligação entre os vários meandros da economia, escrevendo e registrando eu tenho um fio condutor de pontos onde desejo chegar, esses pontos estão distantes, nem sei se chegarei neles, mas o fato é que essa prática organiza minhas diretrizes. Entendo que o meu amigo médico tenha alguma dificuldade de entender os assuntos, imagine se alguém encontra um termo como “propensão marginal a consumir” , e não tem uma explicação do que seja isso, realmente, como vai entender o que seja? Mas, aí, surge um conflito, é que o blog é lido por internautas, e se eu escrevo para que alguns não entendam, pra que escrever?

Por outro lado, o trabalho de um economista não é escrever textos para blog, isso é apenas uma grande oportunidade que me é dada, nesses tempos fabulosos de Internet, de tornar mais claro o objeto da Economia, e poder colocar esse tema ao alcance de todos. Assim, essas duas lições servem para mim, e me aconselham a olhá-las com mais cuidado. É o que eu vou fazer.

Ivan Siqueira

22 de setembro de 2011

8 - Taxa média: isso não existe!

(Ivan Siqueira)

A conversa é velha, mas as atitudes não mudam. Todo mundo está cansado de saber que o dinheiro vale no tempo, mas ninguém o avalia assim, fica uma coisa apenas da boca pra fora. Mas em qualquer livrinho de matemática financeira tá lá o aviso: gente, o dinheiro vale no tempo! Mas o pior, é quando questões econômico-sociais são colocadas no mesmo plano.

Suponha dois países. O país A apresentou taxa de crescimento do PIB em dois anos consecutivos, de 2,5% e 6%, enquanto o país B cresceu nesses dois anos, a 6% e 2,5%. Sempre haverá alguém pra dizer: empatou! Nesse “empatou” a avaliação é de que ambos cresceram 8,65% nos dois anos (taxa acumulada), e ainda vai aparecer alguém pra falar em taxa média, vão dizer: “ a taxa média de crescimento dos dois países é de 4,24%: empatou.”

Basta que você veja alguém falar de taxa média de crescimento do PIB, não precisa nem estar comparando com nada, calculou taxa média, está cometendo um erro gigantesco, não existe taxa média quando se trata de recursos financeiros e monetários, taxa média pode ser calculada para crescimento de uma planta, do tamanho do Universo que está em expansão, da quantidade de chuva que cai na cidade de Londrina, do fluxo de carros que passam pela ponte Rio-Niterói, mas botou dinheiro no meio, pode esquecer taxa média, é um conceito absolutamente vazio e errado, e que não permite nenhuma conclusão.

Suponha que você aplique todos os seus recursos a uma rentabilidade de 12% ao ano, quer dizer, qualquer dinheiro que bata em sua mão, você tem aplicação para ele a 12% ao ano. Em finanças, costuma-se chamar essa taxa de taxa mínima atrativa. Você tem $1.000 para aplicar, e duas alternativas se apresentaram. Na alternativa A retorna $300 no ano 1 e $800 no ano 2. Na alternativa B, retornam $800 no ano 1 e $300 no ano 2. Em qual das alternativas você coloca seu dinheiro? Ninguém vai dizer empatou! É visível que a alternativa B é claramente superior, porque ao receber seus $800 no ano 1, você o aplica a 12% até o final do ano 2, enquanto que na alternativa A, o dinheiro que entrou primeiro foi apenas $300. Tudo tem que ser avaliado no tempo, não tem quem não saiba disso!

Visto de outro modo, a taxa de retorno do investimento B é superior ao do investimento A. Em finanças raramente alguém bobeia com isso, claro, dói no bolso, mas em macroeconomia ninguém liga para isso, e aí saímos calculando taxa média disso, taxa média daquilo. E eu pergunto, taxa média para enxergar o quê? Taxa média, isso não existe! O que temos que fazer é crescer o quanto antes, investir o quanto antes, consumir o quanto antes, todo valor no presente vale mais do que ele mesmo no futuro! Até o conceito de eficiência marginal de Keynes, já avisava disso, esse mesmo Keynes que hoje dizem ultrapassado. Têm que me provar essas coisas, e sem taxa média, por favor!

Ivan Siqueira